Tuesday, December 05, 2006

Simplesmente Pessoa...


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa

Entre nós e as palavras...


MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. A sua formação artística inclui o curso da Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudos na área de música, com Fernando Lopes Graça. Mais tarde, viria a frequentar a Academia de La Grande Chaumière, em Paris, cidade onde conheceu André Breton, em 1947. Rapidamente atraído pelas propostas do movimento surrealista francês, tornou-se um dos mais importantes defensores do movimento em Portugal. Ainda nesse ano, integrou o Grupo Surrealista de Lisboa. Cesariny, figura sempre inquieta e questionadora, afastava-se assim, de maneira definitiva, do movimento neo-realista. Passou a adoptar uma atitude estética de constante experimentação, logo visível nas suas primeiras colagens e pinturas informalistas realizadas com tintas de água, e distribuídas no suporte de forma aleatória. Seria este princípio anárquico que conduziria a obra de Cesariny ao longo da sua vida (incluindo a sua produção poética, que o autor considerava construir a partir deste desregramento inicial das suas experiências na pintura). A continuidade da sua prática plástica levá-lo-ia, portanto, a seguir uma corrente gestualista, por vezes pontuada de um corrosivo humor. Dinamizador da prática surrealista em Lisboa, Cesariny iria criar «antigrupos», com a mesma orientação mas questionando e procurando um grau extremo de espontaneidade, tentativa também visível na sua obra poética. Participou, em 1949 e 1950, nas I e II Exposições dos Surrealistas, pólos de atenção de novos pintores, mas ignoradas pela imprensa.
Crescentemente dedicado à escrita, Cesariny viria a publicar as obras poéticas Corpo Visível (1950), Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956), Pena Capital (1957), Nobilíssima Visão (1959), Poesia, 1944-1955 (1961), Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), As Mãos na Água a Cabeça no Mar (1972), Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), Titânia e a Cidade Queimada (1977), O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras (1989), e a obra de ficção Titânia (1994). A edição da sua obra não segue linearmente a cronologia da sua produção. Corpo Visível é o volume em que as características surrealistas são já dominantes — em textos anteriores, a denúncia social aproximava-se, por vezes, do neo-realismo, embora já em Nobilíssima Visão esta escola fosse objecto de um olhar crítico. O humor, o recurso ao non-sense e ao absurdo, são marcas da escrita de Cesariny, de uma ironia por vezes violenta, que incide sobre figuras e mitos consagrados da cultura portuguesa e ocidental.
Da sua obra escrita sobre a temática do surrealismo, que analisou e teorizou em vários textos, fazem parte A Intervenção Surrealista (1958), a organização e autoria parcial da Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito (1961), a antologia Surreal-Abjection(ismo) (1963), Do Surrealismo e da Pintura (1967), Primavera Autónoma das Estradas (1980) e Vieira da Silva – Arpad Szènes, ou O Castelo Surrealista (1984).
Despediu-se das noites terrestres na madrugada do dia 26 de Novembro de 2006, durante a presença da maior intempérie atmosférica de que há memória sobre o território Nacional. Um estado depressivo cola-se-me à alma.



You are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte, violar-nos tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas, portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida, há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam o seu segredo e a sua posição.
Entre nós e as palavras, surdamente, as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas, palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca, palavras diamantes, palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever, por não termos connosco cordas de violinos, nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais, só sombra só soluço
só espasmo, só amor
só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny










Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante - ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
Mário Cesariny

Friday, October 13, 2006

Jorge e Amigos…..





É absolutamente sublime a beleza do Amor Latente.
Aquele que ainda não é suor. Aquele que ainda é lava.
Não aquele que seca macio nas curvas do tempo, mas aquele que borbulha vivo nas veias. O Amor jorra de dentro. Salta precipícios e fronteiras. É um fora da Lei.
O amor cresce do amor, inunda tudo, mistura-se, acorda e incomoda.
As pessoas despertam, e de repente, tudo é mais claro.
Esse Amor não é bonito. Tem nódoas de bagaço nas calças, e cheira a tabaco.
Chega embriagado a altas horas da noite, e esbarra contra o piano que pinga estremunhado notas agudas.
É o ouro que repousa em farrapos. Brilha quando o inverno apaga a luz.
E o poeta carrega o seu tesouro. Por vezes, este é tão pesado, que o tempo pára.
As gotas de chuva fotografam o movimento. Os relógios dobram para a frente e para trás, numa tentativa grotesca de continuar a funcionar.
Hoje falei com o João. Entre outras coisas, devo ao João a emoção do riso fácil, e do humor mordaz. Dos acordes do Jorge Palma entre a garagem do Renato e a areia da praia. Da inquisição espanhola à auto defesa dos ataques de fruta fresca ;-)(M.P)
Os ensaios eram o nosso recreio, e o Jorge o nosso omnipresente professor. A sua poesia era metal fundente, que secava agarrada ao nosso relicário.
Eu nunca falei com o Jorge Palma, mas gostava.
Dir-lhe-ia que a vida é pouca para tanta riqueza. Que pouca é a carne para o seu tão grande talento. Que o Amor é puro e desinteressado.
Que é o amor informe e ardente, que lhe sai do seu piano e brota das suas palavras.
Lembrando-me de velhos amigos, lembrei-me das tardes em que o tempo parava.
Lembrei-me também que o tempo tem passado muito rápido. Tenho deixado os relógios funcionar muito soltos. Sem acordes e sem brilho.
Mas hoje vou pegar na guitarra ;-)
Obrigado Jorge pela inspiração..!!
João, Nuno e Renato…Obrigado pela dedicação e talento de tantas demos e velhas cassetes!
Tenho saudades do tempo que pára ……

Tuesday, September 26, 2006

Moda ao peso



Terá a Comunidade de Madrid, o direito de afastar as manequins mais magras das suas passerelles??. Será a liberdade individual de cada cidadão, mais importante, que a questão social do todo?. Podemos descriminar um colega de trabalho por ser muito gordo, ou muito magro??. Chega-nos facilmente a vontade de discordar. A liberdade das nossas escolhas individuais está bem definida nas sociedades modernas, podendo até por vezes atingir limites legais caricatos.
A questão do afastamento destas profissionais prende-se com o ideal de beleza que é transmitido a milhares de adolescentes. Corpos sub nutridos e excessivamente frágeis, não poderão ser um ideal de beleza saudável, para as milhares de teenagers consumidoras de moda, em busca de uma identidade e de um corpo de referencia.
A responsabilidade de representar uma marca numa passerelle é bem diferente de a utilizar anonimamente na rua. Não está em causa o estigmatizar per si uma parte da classe, pois sabemos que em outros trabalhos de moda e outras passarelles, estas profissionais encontrão trabalho. A questão é que devemos tentar manter o índice de razoabilidade bem alto, desapoiando práticas alimentares e estilos de vida menos saudáveis. Aos Meus queridos estilistas um conselho: Gastem mais tecido;-)

Inspiração ao Metro




Farão os Italianos realmente melhor???.Bem.., falando de moda, e de toda a sua indústria, podemos claramente confirmar este pressuposto. Toda a Itália respira Moda, e a zona transalpina, entre o Veneto Veneziano, e os Alpes, é sem dúvida o crescente fértil da indústria Têxtil Mundial, englobando tanto o design e manufactura de matérias primas e produtos acabados, como toda a sua imagem e marketing.
Estes Romanos são doidos!!! Diria a personagem Gaulesa de Goscinny. Doidos e criativos seguramente, diremos nós. Em Itália o design cresce ligado à indústria de ponta. A dialéctica entre os Ateliers criativos, e a mais alta tecnologia produtiva, faz da Itália, um país em que o ..made in ..faz todo o sentido.
Com uma imagem de marca de enorme qualidade, toda a industria têxtil Italiana goza de irredutível credibilidade, pela qualidade e inovação das suas matérias primas.
. Apesar das imposições do mercado, e o consequente crescente afastamento da confecção para leste e oriente, a criação de novos materiais para a indústria têxtil continua cerebralmente no eixo Europeu e norte Americano. A tradição manda que todas as novidades do sector passem invariavelmente em primeira mão, e quase sempre no segredo do deuses, pelas exposições europeias do sector.
Milão é desde há 25 anos uma referência, no dar a conhecer o que há de novo na área, antevendo, as next big things do mundo da moda.
A partir de Setembro de 2005, os diversos certames existentes (Ideabiella ,Ideacomo, Moda In, Prato Expo e Shirt Avenue) concentraram-se numa única exposição bi anual – a Milano Única, certame único e incontornável do mundo da moda.

Sunday, September 24, 2006

Meu Rico Santo António....



Meu rico Santo António ..
As palavras são poucas para a tua generosidade.
O tempo é pouco para saborear tua companhia.
A genuína amizade diz-me, que o verdadeiro santo és tu...

Entre Padova e Lisboa, Fernando de Bulhões e Taveira Azevedo (ou Fernão de Bulhões y Taveira Azevedo) encontrou a sua Canonização.
Nascido e criado em Lisboa, aos quinze anos entrou para um convento de Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, e em 1220, com vinte e cinco anos, impressionado pela pregação de alguns frades que conheceu em Coimbra enquanto estudava, trocou o seu nome por António e ingressou na Ordem dos Franciscanos. Era um pregador culto e apaixonado, conhecido pela sua devoção aos pobres e pela habilidade para converter heréticos. Leccionou ainda teologia em várias universidades europeias, tendo passado os últimos meses da sua vida em Padova, Itália, onde viria a falecer no bairro de Arcella. A festa do Santo Antônio e no dia 13 de junho.Santo António detém o recorde de canonização da Igreja Católica: foi declarado santo menos de um ano decorrido sobre a sua morte, em 30 de Maio de 1232. É o santo padroeiro das cidades de Padova e de Lisboa.

Saturday, September 16, 2006

Volta ao Veneto


Cola me a camisa ao tronco. Será que estou no delta do rio amarelo?? António!!! Mas que raio! Estamos completamente perdidos...
Vagueamos à deriva por um emaranhado de becos e vielas. Como conspiradores, percorremos silenciosamente a noite. Ruas finas e de luz amarela escondem antigos segredos. No meio deste labirinto de média luz, aventuras e paixões despertam das paredes húmidas. Daqui ninguém sai ileso, e todos levamos histórias para contar. O silencio estagna por entre os pequenos largos e fontes, e cada fonte tem o seu largo para dar de beber. Um gato gordo e castanho, atravessa lentamente a nossa passagem, permanecendo completamente indiferente às nossas intenções.
A Mónica vai explicando musicalmente a diferença entre o teatro clássico e o novo teatro veneziano. António garante que não estamos perdidos.
Por agora, a chuva enche os canais. Grossa e constante, escorrega pelas caleiras e tectos aleatoriamente. A maré desta vez não chega a São Marcos, e um vendedor ambulante guarda as últimas malas que sobraram das hordas de turistas Americanos.
Terá nascido por aqui o capitalismo? Condicionalismo, ou simplesmente a natureza humana a funcionar espontaneamente?
Os venezianos souberam adaptar-se ao seu micro clima, e ao seu particular estado.
As suas gentes souberam interpretar correctamente as regras do comércio com o oriente. O Adriático congestionou de riqueza e fortuna, e as
portas de São Marcos foram as portas da própria Europa.
Estamos no dia 16 de Setembro do ano da graça de 2006, e o tempo não desilude. Apenas revela lentamente camadas de história.